segunda-feira, 30 de janeiro de 2017

[Resenha] Diário de uma escrava

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Autora: Rô Mierling
Páginas: 240
Editora: DarkSide
Laura é uma menina sequestrada e jogada no fundo de um buraco por alguém que todos imaginavam ser um bom homem. Ela vê sua vida mudar da noite para o dia, e passa a descrever com detalhes sinistros e íntimos cada dia, cada ato, cada dor que o sequestro e o aprisionamento lhe fazem passar. Estevão é homem casado, trabalhador, pai de família, mas que guarda em seu íntimo uma personalidade psicopata. Ele percorre ruas e cidades se apossando da vida de meninas ainda muito jovens, pois dentro de si uma voz afirma que é dele que elas precisam. Mergulhando fundo nessa fantasia, ele destrói vidas, famílias e sonhos, deixando atrás de si um rastro de dor e morte.
Narrado em parte em forma de diário, o livro acompanha mais de quatro anos da vida de Laura em um buraco embaixo da terra, período em que algo dentro dela também se modifica de uma forma inimaginável em busca da única maneira para sobreviver. Publicado originalmente na plataforma digital Wattpad, onde já teve mais de um milhão e meio de leituras, DIÁRIO DE UMA ESCRAVA apresenta um retrato duro, cruel, abominável, mas infelizmente corriqueiro no Brasil e em todo o mundo.
Através de Laura, raptada ainda adolescente por um homem que ela chama de “Ogro”, a autora denuncia os diversos tipos de violência que muitas mulheres são obrigadas a suportar em silêncio e nas sombras da sociedade. O “Ogro”, um homem aparentemente comum, honesto e “acima de qualquer suspeita”, mantém Laura presa em uma casa afastada, onde abusa dela sexual e mentalmente, alegando ser ela o seu verdadeiro amor. Laura, compreensivelmente, só pensa em escapar dali. Mas agora ele parece estar mudando. Será que é o melhor momento mesmo para fugir?... Bem, isso você vai ter que ler para descobrir.

Diário de uma escrava é uma história crua, delicada e impactante sobre o que há de pior no ser humano. A obra é baseada em fatos reais, onde a autora faz um apanhado de histórias de várias meninas, e cria Laura, a personagem que dará voz a um tema muito importante: a exploração sexual. Essa é uma situação repugnante por si só, mas quando crianças fazem parte desta podridão toda fica ainda mais brutal e abominável. O sequestro de crianças e a escravidão sexual andam juntas neste enredo, o que pode ser um belo soco no estômago para os mais fracos, e por isso não recomendo a leitura para qualquer um. Esta foi uma leitura que eu não posso dizer que gostei, nada do que é retratado nos dá prazer em ler, no entanto, é uma leitura necessária.


Laura tinha quinze anos quando o Ogro, o apelido que dá ao seu sequestrador, a tirou de sua família e amigos. Ela passa quatro anos vivendo em um buraco, sem luz natural, em condições precárias e desumanas. Ela é estrupada todos os dias. Se o Ogro estiver de bom humor, ele é carinhoso. Se Laura for um pouco rebelde, os estupros são violentos, e ela ainda é espancada. O terror é muito mais psicológico também, pois Laura se vê dividida entre desistir de viver ou continuar lutando e buscar uma saída daquilo tudo. 

Sonhos e desejos foram retirados dela. O que sobrou foi uma casca vazia, onde o instinto humano acaba lutando pela sobrevivência, por mais que não tenha mais esperanças de voltar a ter uma vida normal. Este relato é brutal, e acompanhar os sentimentos e pensamentos de Laura faz o leitor querer fechar o livro na mesma hora. É tudo tão real, horroroso e repugnante. Como podem existir pessoas que fazem este tipo de coisa com outro ser humano? Com crianças? Um sentimento de desesperança nos acompanha durante toda a narrativa. 


Em certo momento parei de sentir raiva de Ogro, no fim, só queria entender como ele conseguia cometer essas atrocidades, e ainda assim ter uma esposa, um emprego, ir na igreja e agir como uma pessoa normal?! Diário de uma escrava é um livro que não tem final feliz, já aviso vocês, o que torna tudo mais desesperador ainda, pois nenhuma história deste tipo tem. Por mais que a pessoa fuja e sobreviva, as lembranças devem ser sufocantes.

Ogro está enjoado de Laura, ela já não é mais tão nova, e assim, resolve "caçar" outras meninas. Quando uma das crianças sobrevive, ele se vê acuado e resolve fugir com Laura. A garota vê a oportunidade de programar uma fuga. Finalmente ser livre. Porém, o terror psicológico que o homem joga em cima dela a deixa bastante em dúvida se não é melhor continuar do jeito que está.


A obra é narrada por Laura, mas há certos momentos que presenciamos as cenas em que Ogro sequestrou outras garotas. Nenhuma delas aguentou tanto quanto Laura. Os detalhes são dolorosos de acompanhar, senti uma tristeza profunda de tanto horror e falta de empatia. O livro também nos apresenta sobre a síndrome de Estocolmo, que é onde as vítimas acabam sentindo algum tipo de afeto pelo sequestrador.

Este é o tipo de leitura que não consegue ser fluída, pois o leitor tem que fazer algumas pausas, respirar, e então voltar para aquele buraco junto com Laura. Como eu disse, essa é uma obra necessária, e ela serve de aviso, principalmente para os pais, cuidarem de seus filhos. Muitas das vítimas de Ogro ele conseguiu na Internet, onde se fazia passar por um jovem, e as convidava para se encontrar com ele. Os perigos são reais, nada é embelezado, é tudo preto no branco. Diário de uma escrava é um livro que vai permanecer por um bom tempo na minha memória.


A edição da DarkSide está deslumbrante. Eles tiveram um carinho enorme com todos os detalhes deste livro. Eu gostei bastante de receber esta obra, eu esperava algo impactante, mas foi pior do que eu imaginava. A escrita da autora é bastante envolvente, significativa e real. 

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